
como não sou grande escritor vou roubar algumas palavras ao meu escritor favorito, antonio lobo antunes, este texto foi retirado de um crónica por ele escrita na revista visão.
"vão fazer 11 anos que o meu pai morreu e ainda não cessou de mudar dentro de mim. pensava que os mortos ficavam fixos em nós consoante ficam fixos no caixão é mentira: alteram-se conforme se altera a imagem que temos, desde a aparência ao temperamento, entendemo-los melhor, ficamos em paz com eles, sem ressentimento nem zanga... Uma noite destas sonhei com ele: não tinha mais de trinta anos, estava bonito, com ar saudável, alegre, sentava-se à mesa de jantar e dizia - sabes filho, nunca me senti tão bem. palavra de honra que nunca me senti tão bem, isto radiante, simpático, quase de açucar: andei com o sonho na cabeça dias a fio, a pensar como será comigo em relação às pessoas que me estiveram próximas. não sou especialmente simpático, falo pouco, custa-me exprimir o amor que sinto, envergonho-me de, em certas altura me apetecer chorar. ... ó pai o que eu gostava de dizer - nunca me senti tão bem. palavra de honra que nunca me senti tão bem e estar à mesa consigo. imagine: apetece-me estar à mesa consigo, sobretudo agora que é novo, vejo-o contente e não vai morrer nunca mais. não tenho espaço para nenhuma sepultura cá dentro..." faltam aqui muitas coisas, como as saudades, as últimas conversas, as primeiras conversas as que tivemos entretanto, as caçadas, as viagens à terra, as discussões, os almoços e os jantares, as partidas de dominó, o jornal "a bola" que vinha todos os sábados dentro da lancheira, as doenças, as estórias, falta o que foi só nosso. o que está aqui já é bastante, afinal isto é só um blog. obrigado antonio lobo antunes por conseguires escrever o que eu gostava de dizer e principalmente obrigado PAI, por tudo.